Posts Categorizados ‘motoristas agressivos

27
fev
12

a expressividade dos motoristas

A necessidade que o ser humano tem de se expressar é realmente algo formidável. Através de música, literatura, pintura, artes corporais e várias outras formas de expressão, o homem fala o tempo todo de seus sentimentos, desejos e frustrações.

Nas grandes cidades brasileiras, o tipo de interação que ocupa parte cada vez maior da vida das pessoas está fazendo surgir uma nova forma de expressar as emoções diárias: o automóvel. A linguagem do automóvel vai muito além de ser um jeito de mostrar quem a pessoa é ou, para usar o clichê, um “símbolo de status social”. Diante do tédio, da necessidade humana de expressar-se e de um volante, o motorista precisa encontrar maneiras de compartilhar o que sente.

Como então entender tanta buzina?

O sinal abriu, já faz três segundos, e o veículo à frente não se mexe. Buzina. Um carro parado espera uma pessoa que atravessa na faixa. Buzina. O trânsito travou, não se sabe o motivo, não existe a quem reclamar. Buzina. Como um bebê que sente dor ou frio, o motorista esperneia para quem estiver por perto, grita ao mundo para mostrar seu incômodo, pura expressão de sentimentos.

O gesto é natural: cachorros latem, galinhas cacarejam, cavalos relincham, motoristas buzinam.

Já que o motor também faz barulho, pode também ser usado como forma de expressão. Acelerar o motor estando parado é uma forma de mostrar pressa. Em movimento, levar o motor a uma alta rotação antes de trocar a marcha, especialmente ao ultrapassar alguém, deixa claro ao outro o quanto sua presença ali estava incomodando. A linguagem do motor é especialmente utilizada por meninões, sendo que muitos deles colocam escapamentos especialmente barulhentos para tornar mais eficiente a comunicação e mais clara sua personalidade e atitude.

Mas o automóvel não serve apenas ao deleite dos ouvidos, está também repleto de linguagem corporal. A frente do carro abaixa mais com a intensidade da freada, e levanta com a aceleração. O momento de trocar a marcha é especialmente expressivo, pois soltar a embreagem bruscamente enquanto se acelera forte faz empinar a frente do veículo, como um quadrúpede indomado que se revolta e quer fugir. De carro ou de bicicleta, já observou como é comum alguém praticando esse balé atrás de você?

Esses corpos em movimento também podem fazer movimentos laterais, e um gesto forte no volante ao iniciar uma ultrapassagem faz o carro balançar lateralmente, e assim o motorista deixa claro a quem está na frente que não tem tempo para obstáculos.

Efeitos de luz dão um toque especial à cena. Alguns piscam os faróis, outros jogam luz violentamente na sua cara apenas quando precisam, outros ainda andam com os faróis altos ligados o tempo todo. Cada personagem traz o seu tema. Luzes brancas especialmente fortes e ofuscantes são cada vez mais comuns por esses palcos, criam tensão e dizem muito sobre quem está ali. E para despedir-se, o pisca-alerta deixa carinhosas saudações.

Todo esse espetáculo cênico é reforçado por um farto repertório de expressões faciais e gestos com os braços, mãos e dedos.

Essa vontade de se comunicar é um aspecto muito bonito do ser humano. As ruas da cidade são mesmo um lugar especialmente inspirador, e seus personagens têm sempre muito a dizer.

12
ago
11

péssimo argumento

Algumas placas espalhadas pela cidade pedem cuidado ao dirigir argumentando o seguinte: “Motorista, você também é pedestre”.

O argumento é péssimo, pois é falso para muita gente. Existe um grupo nada desprezível de pessoas que de fato nunca são pedestres, pois utilizam o automóvel em 100% dos deslocamentos. Elas jamais fazem um trajeto a pé, jamais passam por um local público sem a proteção da bolha de aço e, às vezes, da blindagem. Caminham apenas dentro de suas casas, escritórios, centros comerciais fechados com estacionamento interno, áreas comuns de condomínios fortificados.

E o grupo é cada vez maior, com vários fatores contribuindo para o crescimento. O principal deles é a cultura do medo. Um outro, decorrente do primeiro, é um projeto de vida que vem se tornando bastante comum: morar em bairros projetados para isolar as pessoas, ou em grandes condomínios fechados, verdadeiros feudos, com serviços locais e diversificados dentro de seus territórios e que protegem os moradores do perigoso contato com o mundo lá fora.

Melhor seria se o argumento não dependesse da inversão de posições. Apesar de as escolas insistirem que nossa sociedade permite a tal da mobilidade social, sabemos que ela é bastante restrita, e que algumas posições sociais são inabaláveis.

Se respeito aos outros depender da possibilidade de as posições se inverterem, ou pelo menos de a pessoa um dia passar a ter as mesmas fragilidades dos outros, temos um grupo de pessoas dispensadas desse trabalhoso cuidado, pois não têm nada a temer.

11
jul
11

doentes mentais ao volante

Estima-se que entre 15% e 20% dos motoristas sejam portadores de doença mental primária, e portanto jamais deveriam ter recebido habilitação para dirigir. A informação é do Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET) em artigo publicado na página eletrônica da entidade.

O médico ainda afirma que casos de reprovação por fatores psicológicos, se existem, não chegam a 0,1% dos candidatos. E atualmente o exame psicológico é exigido somente de pessoas que exercem atividade remunerada ao volante.

Um grande problema das máquinas de andar está na proteção física que dão ao condutor. Gestos irresponsáveis e infantis, por mais que façam grandes estragos do lado de fora, nem sempre afetam o autor do gesto, confortavelmente protegido pela estrutura de metal e pelo cinto de segurança.

Se o quadro clínico é preexistente, ou se é causado justamente pelas condições das vias públicas, parece uma pergunta irrelevante. Pessoas com distúrbios comportamentais, pessoas com tendências clinicamente identificáveis para comportamentos agressivos impulsivos são uma ameaça coletiva.

Vias públicas devem ser pensadas como parte de um sistema de transportes, não como áreas para o desfrute de brinquedos caros. Para quem não tem condições de atender certos requisitos de convivência, considerando que um automóvel é uma arma e um meio de agressão, há os outros meios de transporte disponíveis.

Trata-se de um problema de saúde pública. O agente oficial de trânsito é responsável por um sistema que causa quarenta mil mortes por ano. Cabe a ele, entre outras coisas, identificar quem não está apto para o convívio e retirar essas pessoas das vias públicas, ainda que temporariamente. A aplicação de um teste psicológico rigoroso poderia começar, por exemplo, com motoristas causadores de acidentes graves.

30
mai
11

pressa

Observando as pessoas daqui, parece que é bom estar com pressa.

Com pressa, você não precisa ficar cumprimentando todo mundo na rua e na padaria. Não precisa dar bom dia quando passa pelo porteiro, e pode até passar um sinal vermelho de vez em quando. Aliás, não só de vez em quando, porque ter pressa aqui não é de vez em quando. Você está atrasado porque tinha trânsito, portanto o normal é ter pressa.

Já que está com pressa, aproveita e fura a fila que espera para entrar na próxima à direita, vindo por fora e entrando na frente de alguém que já esperou mais que você. Você não pode esperar, pois está com pressa.

Você pode furar fila, virar a esquina correndo, passar o sinal, buzinar, jogar o farol no carro da frente. Não precisa dar passagem para ninguém, nem parar para o pedestre. Você deve demonstrar sua pressa na maneira de conduzir o seu carrinho, vrrum, vrruum!

Pressa é um tempo, é um estado de espírito permanente.

Pressa é um motivo. Pressa é um recurso.

25
fev
11

ciclofaixa de brinquedo

Quando foi inaugurada, em agosto de 2009, a ciclofaixa que liga os parques do Ibirapuera, das Bicicletas e do Povo causou bastante repercussão na mídia e entre simpatizantes das bicicletas. Reaparece nas pautas agora que foi estendida até o Villa-Lobos. Andar pela ciclofaixa dominical é certamente uma atividade bastante divertida, especialmente quando você está passeando com seus filhos. Mas não vejo nela “um importante passo na direção de uma cidade com melhores condições para as bicicletas”, como ouvi de muita gente. Pelo menos não com a mesma lógica. Por vários motivos.

O maior deles é que, sendo um equipamento criado para funcionar somente aos domingos, reforça a ideia de bicicleta como brinquedo e não como meio de transporte. Domingo é dia de alegria, dá até para andar de bicicleta pelas ruas. A ciclofaixa dominical ensina que há um dia da semana para andar de bicicleta e seis para não andar.

Tanto ciclistas quanto motoristas participam de uma brincadeira que acontece em condições que em nada lembram a relação entre carros e bicicletas no dia a dia da cidade. Em grande parte do traçado, a ciclofaixa está à esquerda da pista, quando o normal é que motoristas tenham as bicicletas à sua direita, por serem veículos mais lentos.

Além disso, a sinalização pintada no chão à esquerda da pista sugere a alguns ciclistas que é por ali que eles devem andar nos dias em que a ciclofaixa está desativada, o que além de incorreto é perigoso.

Ciclistas inexperientes costumam andar mais devagar, e nesse caso deveriam ficar na parte direita da ciclofaixa, liberando a esquerda para quem vai mais rápido. Esses ciclistas muitas vezes não conseguem equilibrar-se direito e manter uma linha reta constante. Acontece que como a ciclofaixa fica quase sempre à esquerda da pista, a parte direita da ciclofaixa é a posição mais próxima da área dos automóveis. Portanto os ciclistas inseguros têm duas péssimas opções: ou ficam em posição perigosa, correndo o risco de por um pequeno vacilo caírem na faixa dos automóveis, ou têm que pedalar pela esquerda, forçando os outros ciclistas a ultrapassarem pela direita. A escolha é entre o perigo e o mau hábito.

Há uma linha de cones entre a ciclofaixa e a área dos automóveis, criando uma separação entre a área dos carros e a das bicicletas. Ou seja, nem pelo aspecto didático de acostumar os motoristas a dividir o espaço e conviver pacificamente com as bicicletas a ciclofaixa de brinquedo serve.

Ao contrário, são frequentes os relatos de comportamentos muito agressivos por parte dos motoristas, e até de alguns acidentes. Muitas pessoas não têm estrutura psicológica para suportar a diversão alheia. Ver parte de seu espaço sendo oferecido aos outros, ainda que em condições bastante restritas, é para muitos motivo para um gesto de ódio.

Há também o uso inadequado que o poder público faz da ciclofaixa dominical no plano simbólico. Ela é contabilizada, junto com umas poucas ciclovias de verdade existentes na cidade, como um equipamento de mobilidade, quando deveria ser considerada um equipamento de lazer e recreação. Além disso, sua extensão é contada em dobro, já que o projeto foi benevolente, vejam só, a ponto de construir uma pista para ir e outra para voltar! Os que optaram por esperar que a administração pública lhes dê ciclovias para só então cogitarem sair às ruas de bicicleta, esses talvez comecem a perceber na mão de quem estão seus planos de ter na bicicleta um meio de transporte efetivo.

Mas talvez alguns efeitos positivos, bastante indiretos e de longo prazo, possam resultar da ciclovia de brinquedo. Muitas bicicletas novas serão compradas, e outras que estavam encostadas num quartinho receberão manutenção e ficarão em condições de uso. Isso acabará por aumentar o número de bicicletas com potencial de ocupar nas ruas o lugar a que têm direito.

Mesmo na condição de brinquedo, a bicicleta na ciclofaixa está onde deve estar, na rua, e talvez comece a aparecer como veículo de verdade nos planos de algumas pessoas. Os motoristas terão tempo de sobra para sonhar, nas horas diárias que passam encurralados nas avenidas enquanto as bicicletas fluem livremente entre as máquinas.

Assim como acontece a uma criança, que começa a formar seus ideais de consumo ao ganhar seu primeiro carrinho de brinquedo, quem sabe uma ciclovia de brinquedo possa mostrar, na clareza de um domingo, onde está a liberdade que muitos acreditam estar no automóvel.

30
jun
10

carga viva

Pegue uma estrada pelo interior e verá caminhões que levam vacas, porcos, cavalos, galinhas. Os motoristas desses caminhões tomam mais cuidado com as peças que carregam do que a maioria dos motoristas de ônibus urbanos de São Paulo.

Não entendo o prazer destes motoristas em fazer acelerações e freadas tão bruscas, aumentando o sofrimento dos passageiros e eventualmente derrubando alguns. Pior é que muitos passageiros não percebem nada de errado nisso, alguns acreditando que os motoristas estão assim contribuindo para que eles cheguem mais rápido ao seu destino, como se houvesse essa possibilidade numa via entupida.

Seja por não perceber, seja por intimidação, ninguém reclama. E todos sofrem mais que gado.

Por estarem em posição privilegiada, na cabine alta dos ônibus, esses motoristas poderiam, mais que os outros, perceber antecipadamente quando o sinal está fechado ou a fila está parada, deixar de acelerar sem necessidade, frear de maneira gradual. Ao contrário, todos preferem compartilhar dessa estranha pressa. Ansiedade é uma doença altamente contagiosa.

17
mai
10

a guerra dos motoristas

Em matéria publicada no dia 28 de abril de 2010, a repórter Mariana Barros alerta os leitores de Veja para mais uma guerra a ser enfrentada pelos motoristas em sua sofrida rotina. O inimigo: os ciclistas.

Mas por que os ciclistas ameaçam tanto? A foto da matéria responde: porque “costuram” entre os carros parados no trânsito.

É mesmo insuportável para o motorista ver que, sobre uma bicicleta ou uma moto, muitos seguem seu caminho enquanto ele fica lá encurralado. Não é à toa que a repórter, nesse ponto, iguala ciclistas aos motociclistas (ou “motoqueiros”, como prefere).

Ela ainda lamenta que nada acontece com os que deixam de seguir as normas (usar equipamentos de segurança, sinalizar manobras com o braço, respeitar semáforos, trafegar na mão de direção), pois bicicletas não têm placa de identificação. Cara repórter, acontece sim. Um acidente entre uma bicicleta e um automóvel dói bastante, e pode resultar em morte ou sequelas graves. Se qualquer pequeno acidente de automóvel doesse, certamente eles não aconteceriam aos milhares por hora.

Há de fato muitos ciclistas irresponsáveis. Mas eles sempre serão as maiores vítimas de sua irresponsabilidade. E o dano que podem causar aos outros é muito pequeno. Motorista, entenda uma coisa: ciclista nenhum tem interesse em lhe causar prejuízo jogando o próprio corpo contra o seu patrimônio.

Discretamente apresentado pela matéria como exemplo a ser seguido pelos ciclistas é o grupo que só pedala à noite (“porque o tráfego é menos intenso”) e anda em pelotão. Como então eu faço para ir trabalhar?

A mania de tratar bicicleta como um brinquedo, e não como um meio de transporte, aparece também na expressão infantilizadora “turma do pedal”.

É só no penúltimo parágrafo, depois de falar na quantidade de ciclistas mortos em 2009, que vai aparecer mais um elemento, até então esquecido, dessa guerra. Repare: “a intransigência dos motoristas é outro fator que contribui para a insegurança no trânsito”. Fala da pouco praticada regra da preferência dos veículos mais leves sobre os mais pesados. Mas conclui que o problema não está aí: “ainda que os condutores respeitassem a preferencial e fossem gentis uns com os outros, ninguém estaria a salvo de acidentes”. Formidável!

O especialista em educação no trânsito mencionado no final do artigo é citado apenas para lembrar os leitores que ciclovias tirariam espaço de outros veículos para dar às bicicletas. Ele é contra incentivar as “pedaladas” enquanto não houver locais seguros para as bicicletas. Só uma questão: quando será que isso aconteceria? A cada dia que passa, estamos mais perto ou mais longe de um ambiente seguro no trânsito?

A solução do tal especialista, mais uma vez tratando bicicleta como brinquedo, é uma pérola: “se é para estimular a preservação do meio ambiente e a prática de atividade física, não seria melhor fazer uma ampla recuperação de calçadas e incitar as pessoas a caminhar?”.

Usando termos como “guerra”, “embate” e “espinhosos desafios”, a repórter alerta a classe média motorizada leitora de Veja para mais esse perigo das ruas. Ainda que ciclistas estejam em situação de enorme desvantagem quanto à segurança física, é neles que está o problema. A matéria é praticamente um alerta aos motoristas para que tomem o devido cuidado e não arrumem o problema pra cabeça que seria um processo por lesão corporal ou homicídio resultante de um acidente.

20
abr
10

sinal vermelho

Não proponho que os ciclistas descumpram o Código de Trânsito Brasileiro. Entretanto cabe lembrar alguns fatos, uns mais evidentes que outros, sobre por que existe o sinal vermelho. Isso pode ajudar a compreender alguns comportamentos no espaço público.

semáforos foram inventados para disciplinar o tráfego de veículos motorizados
Quando só os seres vivos se movimentavam, e as máquinas viviam paradas, não havia semáforos. As máquinas se desenvolveram, passaram a andar por aí e se proliferaram. Por isso existem os semáforos. Em cidades pequenas, onde há poucos carros e as pessoas têm o hábito de olhar nos olhos umas das outras, semáforos são desnecessários. Na China, mesmo em cidades razoavelmente populosas, ainda é possível haver cruzamentos em que motoristas, ciclistas e pedestres negociam como seres vivos a passagem pelo espaço comum, sem a mediação dos sinais luminosos e sem que isso resulte em acidentes.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com um veículo motorizado
A afirmação parece óbvia, e muitos dirão que ela vale também para automóveis. Seria estranho dizer que os motoristas querem acidentes, mas é difícil aceitar que eles façam tudo para evitá-los. Na disputa pelos espaços, o motorista blefa: vou por ali, o outro que reduza ou desvie, e me deixe passar. Só que nem sempre o blefe funciona. Pequenos acidentes entre automóveis acontecem aos montes a cada minuto, e resultam apenas em danos materiais. Custa dinheiro, mas é isso. No máximo terão que decidir quem aciona a seguradora, e talvez desmarcar a terapia amanhã cedo para poder levar o carro na vistoria.

Acidentes entre um carro e uma bicicleta sempre machucam bastante.

Motorista, entenda uma coisa: qualquer que seja a gravidade da colisão, eu, ciclista, sempre levarei a pior. O choque será entre o meu corpo e o seu patrimônio.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com outro ciclista, com outro ser humano ou com outro ser vivo
Quem anda sobre uma bicicleta está infinitamente mais próximo da situação do pedestre que do lugar do motorista. Está perto das pessoas, pode ver e ouvir os outros. Pode comunicar-se com gestos, com expressões no rosto, pode parar instantaneamente para dar passagem, pode saudar e agradecer apenas balançando a cabeça. Pode deslocar-se na mesma velocidade de alguém que caminha, quando for necessário.

A potência cara e artificial da máquina e o isolamento dos vidros e do aço não afastam apenas a brisa, o canto dos pássaros e algumas belas cenas, que acontecem na rua o tempo todo. Afastam os outros. Sem o outro não existe convivência. Sem convivência é difícil sentir-se semelhante.

Ciclistas e pedestres devem respeitar o sinal vermelho simplesmente porque esse é o acordo. Mas não precisam dele para saber compartilhar o espaço comum.

26
out
09

estranha pressa

Abre o semáforo. As motos disparam, como um enxame de mariposas, em direção ao próximo sinal fechado, e lá ficam grudadas, atraídas pela luz vermelha. A imagem é de Joca Reiners Terron (Hotel Hell), e é perfeita não só para as motos, mas também automóveis, ônibus e outros veículos motorizados.

O sinal logo adiante está vermelho, o motorista do carro ou ônibus sabe disso, e mesmo assim acelera, muda marcha, ultrapassa o carro lento à frente, buzina para o ciclista, numa estranha pressa de chegar logo ali na frente. E parar.

Nem o desperdício de combustível e freios, nem a consciência da estupidez do gesto, ou do desconforto dos passageiros no caso do ônibus, não há tempo para rever comportamentos. Quem conduz devagar nesse momento, porque já percebeu que em ponto morto chegará no mesmo lugar ao mesmo tempo, esse será xingado, no mínimo em pensamento. Alguns motoristas ansiosos farão a ultrapassagem concluindo que é por causa desse tipo de gente lerda que o trânsito não anda.

Até isso eles poderiam aprender pedalando pelas ruas da cidade. Se vou ter que brecar logo ali, por que gastar tanta energia acelerando? O gasto de energia física, sentido no corpo, ensina o que um raciocínio simples, se houvesse, já poderia ter mostrado. Mas o raciocínio, uma vez iniciado, não pára por aí.

Não se trata somente de desperdício de combustível e freios. A energia física que o motorista gasta para pisar na embreagem, mudar a marcha, pisar no freio e segurar o corpo do efeito da freada também perde o sentido.

A energia não física colocada nesses movimentos todos, na atenção, nas decisões apressadas, no falso relaxamento quando o carro pára, na expectativa do outro amarelo que anuncia a abertura, do melhor momento para engatar a primeira, tudo isso atende por um nome: ansiedade. Ansiedade é doença. Quem sabe isso tudo também deixe de valer a pena.

16
out
09

kriptonita

Termino a leve subida da Patápio Silva e paro no primeiro sinal da Henrique Schaumann. Daqui até meu destino final só há descida e um grande trecho plano.

Uns carros se incomodam atrás de mim, e fazem manobras um pouco mais agressivas para me ultrapassar e logo parar no próximo sinal ali em baixo, na Cardeal ou na Teodoro. Adiante, na grande caixa da Brasil, eu passarei pelo meio de todos eles e, pelo menos até meu destino final, uns 4km adiante, nenhum automóvel voltará a me alcançar.

Nenhum, independente de potência, marca, tamanho ou preço.

Do planeta kripton, berço do Super-Homem, vem um intrigante elemento do mito, a kriptonita.

Um mito é bom quando explica com elegância, e por diferentes lados, algum aspecto da vida. Interessante assistir, de cima de uma bicicleta, ao outro momento da força. Aquele em que o superpoder vai pelo ralo.

“Pobre Super-Homem, nada pode contra mim neste lugar!”, e talvez seja esse um adjetivo particularmente ofensivo para muitos super-homens.

Fica fácil entender o ódio dessas máquinas contra ciclistas e motociclistas, que seguem livres seu caminho apesar de uma ou outra gota de chuva.

29
set
09

buzina

Por estranho que possa parecer a quem mora em uma cidade grande, a buzina é um simples sinalizador sonoro que existe nos automóveis por ser item de segurança.

O Código de Trânsito Brasileiro traz orientações para seu uso.

Art. 41. O condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações:

I – para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes;

II – fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo.

Atualmente, deixou de ser item de segurança e passou a ser um instrumento de agressão, provavelmente o mais utilizado no dia-a-dia.

É através dela que motoristas insultam-se uns aos outros no trânsito o tempo inteiro.

Alguns, especialmente requintados, instalam buzinas ainda mais potentes para aumentar o prazer que sentem ao agredir os outros.

Demorar mais que dois segundos para andar depois que o sinal abre; parar antes de uma faixa de pedestre para que alguém atravesse; fazer uma manobra, permitida ou proibida, que atrapalhe o tráfego. Tudo isso é hoje motivo de agressão, provavelmente alguém vai buzinar. E muita gente terá que ouvir.

Buzinar é um dos gestos mais egocêntricos que existem.

03
ago
09

ocupar a faixa

Ontem eu pedalava com amigos pela zona oeste da cidade. Estávamos em três, e durante a maior parte do trajeto ocupamos inteiramente a faixa da direita em vez de pedalar em fila, grudados na guia.

Era domingo, e mesmo assim fomos agredidos com várias buzinadas. Mas muitos motoristas tiveram a nobre atitude de desviar por uma das faixas à esquerda, que se já não estavam livres bastava esperar um pouco e fazer a ultrapassagem.

Fiquei então refletindo sobre como o gesto de ocupar inteiramente a faixa da direita (evidentemente quando essa não for a única da via) pode ser, pelo menos num domingo, uma prática bastante instrutiva para os motoristas.

Vem o motorista pela faixa da direita. Ao avistar um grupo de ciclistas à frente, haverá um impulso para o gesto condicionado de buzinar, provavelmente originado em seu cérebro reptiliano, aquele núcleo nervoso primitivo, presente também em qualquer lagartixa, responsável pelos movimentos relacionados a sobrevivência, agressividade e outras reações que normalmente não são processadas racionalmente.

Alguns motoristas de fato buzinarão.

Em outros, porém, já que é domingo, haverá tempo para que uma parte mais desenvolvida do sistema nervoso central, o neocortex, interceda bloqueando o gesto agressivo. Esse motorista olhará pelo retrovisor e irá constatar que a faixa à sua esquerda está livre, ou ficará livre em alguns segundos. Fará então a ultrapassagem, civilizadamente.

Que momento mais sublime! O exato instante em que se dá a aprendizagem! Nosso motorista terá percebido (e quem sabe leve a lição para os outros dias da semana) que há espaço para todos, que a agressão é muitas vezes desnecessária. Que a bicicleta é um veículo que deve ser ultrapassado como qualquer outro veículo mais lento, sem reclamação.

19
mar
09

educar motoristas?

Alguns motoristas se comportam de maneira bastante agressiva em relação às bicicletas. Em várias situações fica claro que não se trata apenas de falta de cuidado, mas de um gesto deliberado com a finalidade de agredir: buzinam, fazem cara feia, freiam em cima, xingam, fazem gestos de insulto.

A presença da bicicleta na rua incomoda profundamente essas pessoas, no mínimo por ser mais um obstáculo em seu caminho, entre tantos outros motivos que uma investigação psicológica mais profunda poderia revelar.

Diante disso, é comum ouvirmos a opinião de que os motoristas devem ser educados. Educados?

Educar consiste em ensinar pessoas a fazer coisas que elas não sabem, coisas que quando sabidas trazem benefícios práticos (saber fazer conta de vezes permite prever a conta do supermercado antes de passar pelo caixa) e coisas que quando ignoradas podem resultar em rejeição social (entrar em certos lugares sem pedir licença pode gerar confusão).

Portanto, quando dizemos que motoristas buzinam, xingam ou tiram finas de ciclistas porque não são educados estamos também afirmando, por pressuposto, que essas pessoas não sabem que a buzina assusta, não aprenderam na doce infância que xingar é feio, não desconfiam que uma colisão com um ciclista pode resultar em graves ferimentos ou morte.

Os motoristas agressivos sabem disso, sim.

Não acho interessante ceder a eles o confortável refúgio da ignorância.

Existe, de fato, uma coisa que boa parte dos motoristas provavelmente desconhece (ainda que eu duvide bastante que todos os motoristas agressivos desconheçam isso): de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, bicicleta é um meio de transporte e deve trafegar pela rua. Mesmo neste caso, penso que o termo educação não é muito bem adequado. Trata-se, aqui, simplesmente de informação, e de fato todos os motoristas devem estar informados de que lugar de bicicleta é na rua. A partir daí, não se trata mais de problema de informação. E muito menos de educação.

Trata-se, sim, de uma opção individual, a ser tomada por cada motorista, de respeitar ou não um semelhante.

E aqui está uma boa questão. Será que esses motoristas agressivos consideram o ciclista ali fora como um semelhante ou será que eles se veem como seres intrinsecamente superiores, sendo um dos indícios disso a opção que fizeram por estar dentro de uma máquina enquanto que o outro está ali fora fazendo força física para se locomover? De fato, aquela investigação psicológica aprofundada revelaria coisas bastante curiosas.

Claro que os ciclistas não são alvos exclusivos, nem mesmo preferenciais, da agressividade dessas pessoas. Outros motoristas, os motociclistas e principalmente os pedestres conhecem bem esta vida.

O problema é que cada vez mais ciclistas precisamos ocupar um espaço tomado por motos, carros e veículos maiores ainda, mas sem os invólucros de aço, o que nos dá a mesma fragilidade dos pedestres. Os veículos motorizados de certa forma já estabeleceram suas regras tácitas de convivência, e vemos que elas são bastante falhas, o que pode ser constatado pelo grande número de acidentes. Ciclistas não podem participar desse sistema de regras, pois sua integridade física está permanentemente ameaçada.

Se não existe o bom senso e nem, na falta dele, um sistema de leis efetivo o suficiente para garantir a coexistência pacífica dos indivíduos no espaço público, o único resultado é que prevalecerão os mais protegidos, os mais potentes, os maiores. Isso indica um estágio bastante precário no processo civilizatório.

Para que motoristas e ciclistas possam coexistir pacificamente, não basta ensinar aos motoristas o que eles já sabem, talvez nem mesmo informá-los de algo que pouco se refletirá em suas atitudes. É preciso que eles sejam civilizados.




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